Banner Vista de Livro
 Aplicar filtros
Livros do mês: Julho 2019
Temas 
Palavras Chave 
Módulo background

MANRIQUE, Sebastião

Foram localizados1 resultados para: MANRIQUE, Sebastião

 

Referência:14122
Autor:MANRIQUE, Sebastião
Título:ITINERÁRIO DE SEBASTIÃO MANRIQUE
Descrição:

Agência Geral das Colónias, Lisboa, 1946. In-8º de 2 volumes com XV-324-429 pags. Brochados. Ilustrados em separaddo sobre papel couché facsímile da edição de 1608 e com um mapa desdobrável da região onde Manrique passou a maior parte do tempo relatado na obra. Ligeiro empoeiramento das capas mas miolo muito limpo. 

Edição organizada e prefaciada por Luís Silveira.

Observações:

Frei Sebastião Manrique, natural da cidade do Porto, e foi ermita Augustiniano, professou no convento de Goa no ano de 1604; mandado por Frei Luís Coutinho, provincial da congregação da Índia, no ano de 1628 às missões de Bengala, em cujo ministério consumiu o largo espaço de treze anos; regressou a Roma por terra, onde foi eleito definidor geral, e Procurador Geral da província de Portugal. A curia de Roma transferiu-o para Londres no ano de 1669, em cuja jornada um seu criado o matou com o intento de lhe roubar o dinheiro que levava. Este foi o trágico fim que teve Fr. Sebastião Manrique, digno certamente de outro mais feliz pelas largas peregrinações que fez em obséquio da religião cristã, nos reinos do Pegu, Mogor, Cochinchina (Vietnam), ilha de Macassar, e outros emporios do oriente, cuja memória permanece eternizada em alguns escritores. O Itinerário de Sebastião Manrique, de valor universal, teve uma adaptação romanceada em Inglaterra com grande aceitação.

"... Como é sabido, nas diferentes geografias orientais, coalhadas de reis e tiranetes, nada, absolutamente nada se conseguia se não viesse acompanhado pelo respectivo presente.

Tomemos como exemplo a epopeia de Sebastião Manrique, frade agostinho, autor do Itinerário, o relato de uma das aventuras mais fascinantes do início da centúria de Seiscentos, obra bem mais conhecida no estrangeiro do que em Portugal.

Goa, pela sua importância política e posição geoestratégica, foi, para o monge agostinho, local de diversas passagens e prolongadas estadas. A Companhia de Jesus era então o mais moderno, culto e prestigiado organismo, e, por esse motivo, tinha a seu cargo a administração do afamado hospital local, com tal nível de excelência que muitos o consideravam superior ao Hospital do Espírito Santo, em Roma, ou à Enfermaria dos Cavaleiros de Malta, os dois estabelecimentos de referência naquela época. Diz-nos Sebastião Manrique que na janta, numa ampla sala desse hospital, serviram-lhe coisas agradáveis, “um frango a cada doente”, salientando que os pratos e os copos eram de porcelana Ming, então uma raridade na Europa. Consta que o lorde tesoureiro Burghley, ministro das finanças da Inglaterra, ao deparar com a preciosidade oriental pensou tratarem-se de tijelas, copos e pratos “de porcelana branca guarnecidos a ouro”, desde logo considerando ser essa a prenda ideal de ano novo para à rainha Isabel.

Em 1628, Manrique parte de Cochim para Uglim a bordo de um navio mercante, o Santo Agostinho, carregado de búzios, essas grandes conchas usadas como trombetas e (ainda hoje) utilizadas nos templos hindus, e em si um objecto  apetecido, susceptível de ser utilizado como prebenda. Se cortados em rodelas, os ditos búzios serviam de adorno às mulheres. Esta pequena achega, aparentemente fora do contexto, serve para demonstrar a diferença do conceito daquilo que é um presente de acordo com as diferentes culturas.

Os produtos chineses foram protagonistas na gestação e fortalecimento da feitoria de Uglim, que esteve na origem da metrópole de Calcutá. Relatam-nos as crónicas coevas que, em 1577 o imperador mogol Acbar mandou chamar um mercador e aventureiro de nome Pedro Tavares. O português, previdente, viu uma excelente oportunidade de negócio, e aproveitou-a. Garantiu uma entrega anual de quantos objectos de luxo chineses fossem requeridos, desde que lhe permitissem construir uma cidade importante em Uglim, para residência dos seus compatriotas e dos respectivos padres. Pelo teor da oferta, ficamos com uma vaga ideia de quão significativo era o comércio feito pelos portugueses ao longo da costa da China, duas décadas apenas após a fundação da cidade de Macau.  Acbar acedeu face aos desejos de Tavares e logo deu instruções ao vice-rei de Daca, a cuja jurisdição pertencia Uglim, no sentido de conceder todas as facilidades possíveis, não se esquecendo de avisar, simultaneamente, que se houvesse qualquer interrupção nos fornecimentos, o vice-rei naturalmente perderia o seu lugar. Assim, pode-se dizer que foi graças aos presentes chineses transportados pelos portugueses que Uglim singrou muito rapidamente, atraindo pessoas das mais variadas crenças e nações.

Também o poderoso Sirisudhammaraja, rei de Arracão (região do actual Myanmar), beneficiou dos presentes oriundos da China. Era dever dos oficiais, em todas estas monarquias, enviarem despachos pelos estrangeiros de elevado estatuto social, especialmente quando estes transportavam presentes para o rei, como era o caso. Manrique, que se fazia acompanhar pelo capitão Gonçalves Tibau – sobrinho do homónimo Sebastião Gonçalves Tibau, misto de aventureiro e pirata, senhor absoluto durante largos anos da ilha de Sundiva, ao largo do actual  Bangladesh – tinha dado a conhecer a sua chegada e, como incentivo adicional, mandara “ao governador da província de Perorem” um presente de “quatro tabuleiros chineses cheios de cravos-da-índia, canela, pimento e cardamomo especiarias que no local não podiam obter-se e haviam sido importadas para Djanga pelos navios portugueses que vinham de Java e de Samatra”.

Note-se que as ditas prebendas eram servidas, invariavelmente, em tabuleiros de fabrico chinês.

Manrique e o companheiro receberiam do governador, como moeda de troca, “cinquenta galinhas, dois gamos, quatro sacos de arroz perfumado, que era uma especialidade de Chebuba, ilha perto da costa, situada ao sul e manteiga, frutas e doces”. Satisfeitos com a retribuição, os viajantes ofereceram ao filho do monarca “doces à moda da Europa, maçapães de formas fantásticas que divertiram o rapaz”.

Numa posterior etapa da épica jornada rumo a Mrauk-U, capital do reino, outras ofertas se seguiram, primeiro “a um inspector” e, posteriormente, “a um almirante”. Consistiam “em quatro tabuleiros dourados cheios de especiarias e mais outro com três peças de seda chinesa, duas de cetim e uma de veludo, tendo cada uma peça de largura bastante para uma saia”. Também neste caso, antes foi aberto o caminho com a oferta de maçapães, certamente para lhes adoçar a boca. Diz-nos Manrique que o capitão Tibao fez sinal aos criados “para trazerem doces e bolos, os maçapães que tão apreciados tinham sido em Perorem”. (preciosa informação obtida no Instituto Internacional de Macau)

Preço:45,00€